Trump “late mais do que morde” com tarifas ao Brasil, avalia The Economist

Revista britânica analisa que medidas têm motivação política e impacto econômico limitado.

Imagem: Reprodução

As tarifas de 50% impostas pelo presidente americano Donald Trump ao Brasil representam mais uma demonstração de força política do que uma ameaça econômica real, segundo análise publicada pela revista britânica The Economist. A publicação classificou as medidas como “mais latido do que mordida”, destacando as contradições na política comercial americana e o impacto limitado sobre a economia brasileira.

A imposição das tarifas em 6 de agosto, foi justificada por Trump como retaliação ao que chamou de “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta investigações por suposta tentativa de golpe. A medida expõe uma clara contradição na política externa americana, já que Trump havia criticado déficits comerciais bilaterais para justificar outras tarifas, mas os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil há mais de uma década.

O contexto político que motivou as tarifas ganhou contornos dramáticos com a prisão domiciliar de Bolsonaro, decretada pelo ministro Alexandre de Moraes em 4 de agosto. A decisão judicial, que incluiu o uso de tornozeleira eletrônica, foi tomada após o ex-presidente supostamente descumprir medidas cautelares impostas por atuar para tentar embaraçar investigações sobre uma tentativa de golpe de estado.

Trump, que vê Bolsonaro como um aliado ideológico, reagiu às medidas judiciais brasileiras atacando o que chamou de “regime censurador ridículo” e defendendo seu “tratamento terrível” pelo sistema judicial brasileiro. A resposta americana incluiu não apenas as tarifas comerciais, mas também sanções do secretário de Estado Marco Rubio contra o juiz responsável pelo caso, utilizando a Lei Magnitsky Global.

Apesar do tom agressivo, o impacto econômico das medidas deve ser moderado. Cerca de 700 produtos brasileiros ficaram isentos das tarifas, incluindo aviões, petróleo, celulose e suco de laranja. Setores como café, carne bovina e frutas permanecem sob a alíquota integral, mas representam apenas 13% das exportações brasileiras totais, que hoje dependem menos do mercado americano do que no passado.

A estratégia diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se mostrado acertada diante da crise. Sua resposta contundente, afirmando que o Brasil não será “tutelado ou humilhado por um imperador”, foi acompanhada de uma abordagem pragmática que mobilizou empresas brasileiras e parceiras americanas para pressionar Washington. Essa combinação de firmeza pública e diplomacia empresarial ajudou a garantir as isenções que limitaram o impacto das tarifas.

O contraste entre a postura soberana de Lula e a reação de alguns governadores de extrema direita expôs divisões profundas na política brasileira. Enquanto o presidente defendeu a dignidade nacional, governadores bolsonaristas como Tarcísio de Freitas (São Paulo), Romeu Zema (Minas Gerais) e Ronaldo Caiado (Goiás) adotaram uma postura de submissão, culpando o próprio governo brasileiro pelas medidas punitivas americanas.

A reação entreguista desses governadores revelou um viralatismo político que chocou a opinião pública. Tarcísio de Freitas, que já havia sido fotografado usando boné com o slogan “Make America Great Again”, acusou Lula de “colocar a ideologia acima da economia”. Zema responsabilizou “Lula, Janja e o STF” pelas tarifas, enquanto Caiado comparou o presidente brasileiro a Hugo Chávez e propôs que o Congresso negociasse diretamente com Washington, ignorando a soberania do Executivo federal.

Diante da má repercussão de suas declarações iniciais, marcadas por termos como “traidores da pátria” nas redes sociais, alguns governadores tentaram amenizar o discurso. Zema chegou a publicar um vídeo reconhecendo que as tarifas eram “erradas e injustas”, enquanto Tarcísio admitiu em coletiva que o impacto seria “negativo” para São Paulo. A mudança de tom, por vezes ainda errático, evidenciou o cálculo político por trás das posições iniciais de submissão.

A postura firme de Lula vai ao encontro da dependência comercial decrescente do Brasil em relação aos Estados Unidos. Enquanto o mercado americano absorvia 25% das exportações brasileiras há duas décadas, hoje representa apenas 13%. No mesmo período, a participação da China cresceu quase seis vezes, alcançando 28% do total exportado pelo país. Essa diversificação comercial fortalece a posição brasileira nas negociações e reduz a vulnerabilidade às pressões americanas.

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