Sistema brasileiro atende 215 milhões de pessoas e serve de modelo para outros países, apesar dos desafios que ainda enfrenta.

Em um mundo onde o acesso à saúde ainda é privilégio de poucos, o Brasil construiu algo único: o maior sistema público de saúde do planeta. O Sistema Único de Saúde (SUS) representa uma conquista democrática que poucos países conseguiram alcançar, garantindo atendimento gratuito e universal a todos os brasileiros, independentemente de sua condição social ou econômica.
Criado em 1988 com a promulgação da Constituição Federal, o SUS revolucionou o conceito de saúde no país. Antes de sua implementação, apenas cerca de 30 milhões de trabalhadores vinculados à Previdência Social tinham acesso aos serviços de saúde, enquanto o restante da população dependia da caridade de entidades filantrópicas. A nova Constituição estabeleceu que “saúde é direito de todos e dever do Estado”, transformando radicalmente essa realidade.
A universalidade do SUS impressiona por sua amplitude. O sistema atende atualmente 215 milhões de brasileiros, realizando impressionantes 2,8 bilhões de atendimentos por ano. Cerca de 70% da população brasileira depende exclusivamente dos serviços públicos de saúde, e pesquisas mostram que 82,6% dos usuários avaliam o atendimento recebido como bom ou muito bom. Nenhum outro país no mundo possui um sistema público de saúde com essa dimensão e alcance.
Os números revelam a magnitude do SUS: desde procedimentos ambulatoriais simples, como verificação de pressão arterial, até cirurgias de alta complexidade e transplantes de órgãos. O sistema também promove campanhas de vacinação em massa e desenvolve ações de vigilância sanitária, fiscalizando alimentos e registrando medicamentos. Essa amplitude de serviços demonstra como o SUS vai muito além do simples tratamento de doenças.
A capilaridade do sistema é uma de suas características mais notáveis. O SUS consegue chegar aos lugares mais remotos do território nacional, levando saúde a comunidades que antes permaneciam desassistidas. Essa rede se estende por todos os quadrantes do país, organizando-se em níveis crescentes de complexidade e garantindo que cada brasileiro tenha acesso aos cuidados de que necessita, onde quer que esteja.
O reconhecimento internacional do SUS como modelo de saúde pública surpreende até mesmo os brasileiros. No Reino Unido, berço do NHS (National Health Service) que inspirou a criação do sistema brasileiro, acadêmicos e pesquisadores estudam as inovações do SUS. A Estratégia Saúde da Família, com seus agentes comunitários que visitam as casas das famílias, está sendo replicada em projetos pilotos de diversos países, incluindo o próprio NHS britânico.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o trabalho dos agentes comunitários de saúde como uma inovação que o Brasil implementa “de forma muito fácil e tranquila”, enquanto outros países ainda buscam maneiras de desenvolver iniciativas similares. Essa proximidade com as comunidades permite um acompanhamento contínuo da saúde das famílias, identificando problemas antes que se tornem graves e promovendo a prevenção de doenças.
O SUS também promoveu uma mudança fundamental no conceito de saúde. Antes de sua criação, a saúde era entendida apenas como ausência de doença, concentrando esforços no tratamento de enfermidades. Com o sistema único, a saúde passou a ser promovida ativamente, integrando ações de prevenção, promoção, tratamento e reabilitação. Essa abordagem multifatorial reconhece que a saúde depende de fatores sociais, educacionais e ambientais.
Apesar de suas conquistas notáveis, o SUS enfrenta desafios significativos que não podem ser ignorados. O subfinanciamento crônico, problemas de gestão em alguns municípios e a necessidade de modernização de equipamentos são questões que demandam atenção constante. A pandemia de Covid-19 evidenciou tanto a força do sistema, que conseguiu organizar uma resposta nacional coordenada, quanto suas fragilidades em termos de comunicação e recursos.
Mesmo com suas imperfeições, o SUS permanece como uma referência mundial em saúde pública universal. Poucos países conseguiram construir um sistema que combine universalidade, integralidade e gratuidade em uma escala tão ampla. Para os 215 milhões de brasileiros que dependem de seus serviços, o SUS representa mais que um sistema de saúde: é a materialização do direito fundamental à vida e à dignidade humana, uma conquista democrática que continua inspirando o mundo.

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