Famílias deslocadas pela transposição do São Francisco vivem drama da sede ao lado dos canais.

Há mais de dois meses, escrevi aqui uma reflexão sobre o paradoxo cruel da transposição do São Francisco: a persistência da sede nas comunidades vizinhas aos canais que carregam as águas do Velho Chico. Na época, alertei para a ausência das obras hídricas secundárias, que impediam que os benefícios chegassem efetivamente à população. Desde então, porém, o silêncio das autoridades continua ensurdecedor.
Na última terça-feira (26), estive naquela região e me deparei com o cenário que continua dramático, para dizer o mínimo. O que encontrei foi uma situação que beira o absurdo: famílias que perderam suas terras para dar passagem ao projeto de transposição agora enfrentam uma sede cruel, literalmente ao lado das águas que não podem tocar.
Somente na localidade Barra do Mulungu, 41 famílias foram obrigadas a abandonar suas terras mais baixas, ocupadas pelo projeto da transposição, e se deslocar para áreas mais altas onde não há água para consumo humano nem animal. Essas famílias, que resistem como podem, vivem um desespero silencioso, clamando às autoridades por um sistema simplificado de abastecimento. A ironia é cruel: a água passa ao lado de suas casas, mas é proibido tocá-la.
Um relato que me fizeram ilustra bem essa situação kafkiana: um morador teria sido flagrado por um suposto agente do governo tentando retirar água do canal com um caminhão-pipa e foi obrigado a derramá-la de volta. É a sede sendo punida pela sede, numa demonstração clara de como a burocracia, ou ausência de ações efetivas, pode ser cruel.
Diante desse cenário, fica evidente que o papel das autoridades — principalmente aquelas mais próximas do problema — e também do cidadão, incluindo a imprensa, é mostrar, indicar, denunciar, protestar. Sem um movimento conjunto e apartidário, as pautas que realmente importam para a população local jamais chegarão às mais altas esferas da administração pública. A transposição do São Francisco não pode ser apenas um projeto de engenharia; precisa ser, acima de tudo, um projeto de dignidade humana.

Eu viajo para o sertão das caatingas de Salgueiro, desde criança. A seca, a falta de água potável, é uma sina, na memória e na vida do sertão. Na situação dramática, aqui exposta, perguntamos: onde estão os políticos eleitos por esse povo?