ONU declara oficialmente situação de fome em Gaza

Mais de 640 mil palestinos enfrentam desnutrição catastrófica enquanto agências internacionais responsabilizam Israel pela crise humanitária.

Imagem: Reprodução

Pela primeira vez desde o início do conflito, a Organização das Nações Unidas declarou oficialmente a existência de fome em Gaza. Os dados divulgados pela Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC) revelam que mais de meio milhão de pessoas estão “presas em uma situação de fome, marcada por inanição generalizada, miséria e mortes evitáveis”. A declaração representa o reconhecimento formal de que três limites críticos foram ultrapassados: privação extrema de alimentos, desnutrição aguda e mortes relacionadas à fome.

Os números apresentados pelas agências da ONU expõem a dimensão da tragédia humanitária. Até o final de setembro, mais de 640 mil pessoas enfrentarão níveis catastróficos de insegurança alimentar em toda a Faixa de Gaza, enquanto outras 1,14 milhão estarão em situação de emergência. A crise atinge de forma particularmente severa as crianças: mais de 12 mil foram identificadas como gravemente desnutridas apenas em julho, representando o número mensal mais elevado já registrado e um aumento de seis vezes desde o início do ano.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou a situação como “um desastre causado pelo homem, uma acusação moral e um fracasso da própria humanidade”. As agências internacionais são unânimes ao apontar que a fome resulta de quase dois anos de conflito, deslocamentos repetidos e restrições severas ao acesso humanitário. Aproximadamente 98% das terras agrícolas no território estão danificadas ou inacessíveis, dizimando a produção local de alimentos, enquanto nove em cada dez pessoas foram deslocadas de suas casas.

A responsabilização internacional recai diretamente sobre Israel. Volker Turk, alto comissário de Direitos Humanos da ONU, afirmou que “a fome declarada hoje na província de Gaza é o resultado direto das ações tomadas pelo governo israelense”, que “restringiu ilegalmente a entrada e a distribuição de assistência humanitária”. Para Turk, trata-se de “um crime de guerra usar a fome como método de guerra”, enquanto as mortes resultantes “também podem constituir o crime de guerra de homicídio doloso”.

As projeções para os próximos meses intensificam a urgência da situação. O número de crianças em risco grave de morte por desnutrição até junho de 2026 triplicou, passando de 14.100 para 43.400, enquanto 55 mil mulheres grávidas e lactantes devem sofrer níveis perigosos de desnutrição. As agências da ONU alertam que “as condições de fome se espalhem da província de Gaza para as províncias de Deir Al Balah e Khan Younis nas próximas semanas”, exigindo um cessar-fogo imediato e acesso humanitário total para evitar uma catástrofe ainda maior.

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