Mostra salgueirense encara desafios de se fazer teatro em tempos de pandemia

Antes de março de 2020, quem imaginaria dissociar o artista de teatro da sua plateia? Os risos, aplausos, as interjeições de surpresa ou terror, o levantar da cadeira e até as vaias são o termômetro do ator em palco, mas nos 5 dias de programação da Mostra Moinho 2021 (27/04 a 1º/05), atores e técnicos enfrentaram o desafio de adequarem seu trabalho às exigências de tempos pandêmicos.

Há bastante tempo sem atuarem, os grupos salgueirenses apresentaram-se ao vivo do Estúdio Moinho Criativo para o YouTube, com acesso gratuito ao público. Além de Chapeuzinho Vermelho (Togarma), O Titanic do Nordeste (Grupo de Teatro Popular de Salgueiro), Maria Colombina e Zé Pierrot (Soul Dance), O Príncipe Miúdo (Argus), O Homem e a Morte (Tengolengo), a Mostra contou, ainda, com Autômato – Programado para Divertir (Coletivo Dona Zefinha), transmitido de Itapipoca (CE).

Os vídeos Vísceras, Pele e Crueldade (Coletivo Cínicas) e Lady Macbeth (Josival Alves) reforçaram a integração das linguagens de música, dança e audiovisual, num esforço de uma estrutura quase cinematográfica até então nova para as artes cênicas.

O projeto teve a realização do Moinho Estúdio Criativo e os incentivos da Lei Aldir Blanc, por meio do Governo Federal, e do Governo do Estado de Pernambuco via Fundarpe, que entenderam a impossibilidade do artista contar com a bilheteria durante o distanciamento social. “Colocar esse projeto em prática depois de tanto tempo parado é muito gratificante porque a gente que trabalha com arte e cultura não consegue ficar longe”, explicou o produtor da Mostra, Bruno Feitosa.

Se a problemática do distanciamento do público é relevante, a da propagação do vírus requer cuidados para os trabalhadores. Feitosa contou que o planejamento do evento foi feito no formato home office, via aplicativos de reuniões on line, bate-papos e redes sociais e os ensaios, sempre em locais abertos: “Foram feitos 28 testes de Covid, todos negativaram, e o espaço foi higienizado com o mesmo produto usado na limpeza de hospitais e de locais com altos índices de contaminação para dar uma maior segurança a quem estava trabalhando”.

Pequeno Príncipe ganha versão salgueirense: Como resultado de um projeto de pesquisa sobre os aspectos culturais do sertão pernambucano, um trecho da peça O Príncipe Miúdo foi encenado pela Companhia de Teatro Argus, na terceira noite da Mostra Moinho 2021.

O texto, escrito por Raquel Rocha, foi livremente inspirado na obra de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, e traz elementos locais como a poesia popular, o cordel e as xilogravuras. O deserto do Saara dá espaço à caatinga em processo de desertificação, o piloto de avião dá espaço ao vaqueiro desbravador na lida com o gado e a rosa do Pequeno Príncipe é autoprojetada na flor de mandacaru. Nesse sentido, tanto o cenário quanto o figurino trouxeram elementos em couro e que remetem à estética do cordel.

A diretora de O Príncipe Miúdo explicou a metodologia da coleta de conteúdo: “Todo o elenco estudou sobre a cultura pernambucana, já imprimindo o material identificado nos figurinos e no cenário, desde a criação até a fabricação, e está sendo um processo bastante intenso”. Ela explicou, ainda, que o trabalho continua mesmo depois da apresentação na Mostra: “Fizemos apenas uma esquete de 10 minutos para deixar as pessoas na expectativa de assistir o espetáculo inteiro.”

Por Raquel Rocha | Foto: Tia Penha