Especialistas explicam as razões ideológicas por trás das críticas ao educador brasileiro, cujo método é reconhecido mundialmente.

Em dezembro de 2003, o então ministro da Educação Cristovam Buarque inaugurou um monumento em homenagem ao educador Paulo Freire na frente da sede do ministério em Brasília. O pedagogo era aclamado como uma personalidade importante da história intelectual do país.
Dezesseis anos depois, em 2019, Abraham Weintraub comandava o mesmo ministério no primeiro ano da gestão do presidente Jair Bolsonaro. Ele chamou o monumento de “lápide da educação”, afirmando que Freire “representa esse fracasso total e absoluto”. O próprio Bolsonaro já se referiu ao educador como “energúmeno” em mais de uma ocasião.
Paulo Freire (1921-1997) é mundialmente reconhecido como um dos maiores educadores do século XX. Por lei federal, é o patrono da educação brasileira. Dedicou sua vida à educação popular e à alfabetização de adultos, com foco na conscientização das classes oprimidas.
Sua trajetória foi marcada pelo exílio durante a ditadura militar e pelo reconhecimento internacional. Em vida, foi homenageado por pelo menos 35 universidades de todo o mundo, incluindo Massachusetts e Illinois (EUA), Genebra (Suíça), Estocolmo (Suécia), Bolonha (Itália) e Lisboa (Portugal). Também recebeu o Prêmio Educação para a Paz da UNESCO em 1986.
A obra mais citada de Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”, foi lançada em 1968 e revolucionou o pensamento educacional. Ela propõe uma educação dialógica e emancipadora, em contraste com o modelo “bancário”, no qual o aluno é apenas um receptor passivo de informações.
“A essência da obra de Freire é totalmente política, no sentido nobre do termo, não no sentido da política partidária”, explica o sociólogo Abdeljalil Akkari, da Universidade de Genebra. Para ele, Paulo Freire é “o pedagogo da politização da educação”.
As críticas da extrema-direita a Paulo Freire não são casuais. Elas têm raízes ideológicas profundas. Suas ideias sobre emancipação das classes oprimidas e questionamento da ordem estabelecida são vistas como uma ameaça ao status quo.
“Freire não é bem aceito pela extrema-direita justamente porque sua filosofia não admite a doutrinação”, argumenta o educador Daniel Cara, da Universidade de São Paulo. “O sectarismo do autoritarismo impede o reconhecimento de uma pedagogia verdadeiramente libertadora.”
A visão conservadora da educação acredita que os problemas podem ser resolvidos com mais tecnologia, equipamentos e carga horária. Não considera necessária uma mudança de abordagem pedagógica. Existe também um tabu sobre politização e formação crítica, exemplificado pelo movimento Escola Sem Partido.
Paulo Freire representa o oposto dessa visão. Sua obra é baseada na formação crítica do aluno e na capacidade de “ler o mundo”. “Quando a extrema direita chegou ao poder no Brasil, a figura de Freire se mostrou fácil de ser atacada”, observa Akkari.
Um dos principais mitos é atribuir a Paulo Freire a culpa pelos problemas educacionais brasileiros. Os especialistas contestam essa visão. A pedagogia freireana nunca foi implementada de modo amplo no Brasil. Paradoxalmente, o método é disseminado em países que se destacam em avaliações educacionais, como a Finlândia.
“Não faz o menor sentido culpar Paulo Freire pelas mazelas educacionais brasileiras”, afirma Daniel Cara. “Ele não é responsável pelo subfinanciamento da educação ou pelos péssimos salários dos professores.”
Akkari observa que essa negação ideológica de Paulo Freire só ocorre no Brasil. “Se você observar o resto do mundo, a obra dele é consensual”, afirma. O professor Ítalo Francisco Curcio, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que parte da controvérsia surge do desconhecimento do método.
“A maior parte dos que dizem rejeitá-lo nem é especialista em educação”, comenta Curcio. “O método freireano não fala em ideologias, mas em formas de ensinar e aprender.” Para ele, rejeitar as ideias freirianas sem conhecê-las é perpetuar a ignorância que Paulo Freire tanto combatia.
Referências
KKARI, Abdeljalil; CARA, Daniel; CURCIO, Ítalo Francisco. Por que a extrema direita elegeu Paulo Freire seu inimigo. DW Brasil, 17 set. 2021. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/por-que-a-extrema-direita-elegeu-paulo-freire-seu-inimigo/a-59211191. Acesso em: 31 jul. 2025.
FARIA, Luiz Henrique Lima. Por que a extrema direita odeia tanto Paulo Freire? Jornal GGN, 3 out. 2024. Disponível em: https://jornalggn.com.br/artigos/por-que-a-extrema-direita-odeia-tanto-paulo-freire-por-luiz-faria/. Acesso em: 31 jul. 2025.
VEIGA, Edison. Por que a extrema direita elegeu Paulo Freire seu inimigo. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 21 set. 2021. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/612971-por-que-a-extrema-direita-elegeu-paulo-freire-seu-inimigo. Acesso em: 31 jul. 2025.
