agosto 2025

Direito e Justiça

TST nega adicional por acúmulo de função a auxiliar de serviços gerais

Tribunal entendeu que manutenção de piscina integra naturalmente as atribuições do cargo; decisão foi tomada no processo RR-102102-88.2016.5.01.0551.

A Primeira Turma do Tribunal Superior do Trabalho decidiu por unanimidade que um auxiliar de serviços gerais não tem direito ao adicional por acúmulo de funções ao realizar atividades de manutenção elétrica, hidráulica e cuidados com piscina. A decisão, proferida em 27 de agosto, reformou entendimento do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, que havia concedido adicional de 30% ao trabalhador.

O caso envolveu funcionário do Serviço Social do Transporte em Barra Mansa, no Rio de Janeiro. O trabalhador argumentava que, devido à sua eficiência e dedicação, passou a exercer tarefas adicionais que exigiam maior esforço e responsabilidade, sem qualquer compensação salarial. Sustentava que as atividades de manutenção elétrica e hidráulica, além dos cuidados com a piscina, extrapolavam suas funções originais e justificariam o pagamento do adicional.

A argumentação inicial foi rejeitada em primeira instância, mas encontrou acolhida no tribunal regional. O ministro Amaury Rodrigues, relator do recurso, fundamentou a decisão no artigo 456, parágrafo único, da Consolidação das Leis do Trabalho. O dispositivo estabelece que, na ausência de cláusula contratual em contrário, o empregado deve realizar todo serviço compatível com sua condição pessoal.

Para o magistrado, a função de serviços gerais naturalmente abarca um leque amplo de atividades que podem incluir pequenos serviços nas áreas elétrica e hidráulica. O tribunal considerou que não se configurava acúmulo de funções, mas sim distribuição de múltiplas atividades inerentes ao cargo durante a jornada de trabalho. Segundo o entendimento da corte, as atividades exercidas pelo trabalhador estavam compatíveis com a função para a qual foi contratado.

A decisão foi tomada por unanimidade pelos ministros da Primeira Turma. O julgamento estabeleceu que a diversificação de tarefas dentro do escopo natural de uma função não gera direito a compensação adicional quando essas atividades são compatíveis com o cargo exercido pelo empregado. A definição judicial pode orientar casos similares sobre os limites da caracterização do acúmulo de funções no direito trabalhista.

Pernambuco

Maior exportadora de manga do Brasil construirá aeroporto privado no sertão pernambucano

Aeródromo da Agrodan em Belém do São Francisco representa marco para o desenvolvimento regional e fortalecimento da fruticultura irrigada.

Imagem: Montagem/Blog Alvinho Patriota

A autorização oficial para a construção do Aeródromo Agrodan foi publicada no Diário Oficial da União em 22 de agosto, através da Portaria nº 1.548/SAGA do Instituto de Cartografia Aeronáutica. O empreendimento será erguido no município de Belém do São Francisco, no sertão de Pernambuco, dentro da propriedade da Agrodan, empresa reconhecida como a maior produtora e exportadora de mangas do Brasil.

A Agrodan possui mais de 1.000 hectares destinados ao cultivo da manga e produz anualmente mais de 30 milhões de quilos da fruta. Com sete fazendas distribuídas entre Pernambuco e Bahia, a empresa gera aproximadamente 1.300 empregos diretos na região. Comandada pelo diretor-presidente Dr. Paulo Dantas, a companhia destina 97% de sua produção ao mercado europeu, consolidando sua posição no cenário internacional.

O novo aeródromo representa uma mudança estratégica na logística da empresa, prometendo reduzir custos operacionais e acelerar o processo de exportação. A infraestrutura moderna será preparada para receber aeronaves de médio porte, fortalecendo a competitividade da fruticultura pernambucana no mercado internacional. O projeto simboliza um investimento significativo na infraestrutura regional do Vale do São Francisco.

Belém do São Francisco, município com cerca de 18,7 mil habitantes, tem na agropecuária sua principal atividade econômica, representando 44,8% do PIB local de R$ 366,3 milhões. A chegada do aeroporto privado consolida a vocação agrícola da região e pode atrair novos investimentos para o setor. O Vale do São Francisco é reconhecido nacional e internacionalmente como polo de fruticultura irrigada.

A região se destaca por sua tecnologia avançada em irrigação e produção de frutas tropicais, movimentando bilhões de reais anualmente. O Vale do São Francisco se posiciona como referência mundial em fruticultura irrigada, utilizando técnicas inovadoras que transformaram áreas áridas em polos produtivos de relevância internacional.

Direito e Justiça

TJ-SP mantém indenização por troca de prontuário médico

Município de Santo André deve pagar R$ 5 mil a paciente prejudicado por falha no atendimento hospitalar; decisão foi tomada no processo 1018425-45.2023.8.26.0554.

A 4ª Câmara do Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a condenação do município de Santo André ao pagamento de indenização por danos morais no valor de R$ 5 mil. A decisão, que manteve sentença da 1ª Vara da Fazenda Pública local, beneficia um paciente que teve seu prontuário médico trocado durante atendimento na rede pública de saúde, situação que impediu a realização de exame necessário ao seu tratamento.

O caso teve início quando o paciente, diagnosticado com esofagite, buscou agendar uma tomografia para complementar sua avaliação médica. O procedimento, contudo, foi negado pela unidade de saúde porque constava no prontuário incorretamente atribuído a ele que possuía problemas pulmonares, condição que não correspondia ao seu quadro clínico real. A confusão documental criou obstáculos desnecessários ao acesso do cidadão aos cuidados médicos de que necessitava.

A relatora do recurso, desembargadora Ana Liarte, caracterizou a troca de prontuários como um “erro crasso, capaz de ocasionar danos graves e irreversíveis ao paciente caso ministrado tratamento inadequado ou com a rapidez exigida em cada quadro clínico”. Para a magistrada, a falha administrativa configurou dano moral ao atingir diretamente direitos fundamentais da pessoa, como a vida, a integridade física e a dignidade no acesso aos serviços de saúde.

A fundamentação da decisão destacou que ficou evidenciada a responsabilidade do poder público diante da “inequívoca falha na prestação do serviço público de saúde” representada pela troca de documentos médicos e pelas dificuldades subsequentes enfrentadas pelo usuário do sistema. O entendimento judicial reconheceu que tais equívocos comprometem a confiança dos cidadãos nos serviços essenciais oferecidos pelo Estado e podem colocar em risco a segurança dos pacientes.

O julgamento foi unânime, com a participação dos desembargadores Ricardo Feitosa e Maurício Fiorito na votação. A decisão se alinha à jurisprudência que responsabiliza os entes públicos por falhas na organização e execução dos serviços de saúde, segundo a qual o direito à assistência médica adequada inclui não apenas o acesso aos procedimentos, mas também a segurança e a precisão no manejo das informações clínicas dos pacientes.

Brasil

Receita Federal equipara fintechs a bancos no combate à lavagem de dinheiro

Nova regulamentação busca fechar brecha explorada pelo crime organizado após operações que desarticularam esquemas bilionários.

Imagem: Reprodução

A Receita Federal publicou nesta sexta-feira (29) uma instrução normativa que submete as empresas de tecnologia financeira, conhecidas como fintechs, às mesmas obrigações de transparência impostas aos bancos tradicionais. A medida, divulgada no Diário Oficial da União, representa um marco regulatório no combate à lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros, estabelecendo que essas instituições devem fornecer as mesmas informações exigidas do Sistema Financeiro Nacional e do Sistema de Pagamentos Brasileiro.

A decisão surge no contexto de três grandes operações policiais que expuseram a magnitude dos esquemas criminosos no país. As ações resultaram no cumprimento de mais de 400 mandados judiciais, incluindo 14 prisões e centenas de buscas e apreensões em pelo menos oito estados brasileiros. Os grupos desarticulados movimentaram de forma ilícita aproximadamente 140 bilhões de reais, evidenciando a sofisticação e o alcance das organizações criminosas que exploram vulnerabilidades no sistema financeiro.

As fintechs, empresas que oferecem serviços financeiros por meio de plataformas digitais como crédito, pagamentos, gestão financeira e investimentos, passam agora a integrar o mesmo arcabouço regulatório que governa as instituições financeiras tradicionais há mais de duas décadas. A nova norma exige que essas empresas apresentem a e-Financeira, documento que registra movimentações de alto valor, permitindo às autoridades maior rastreabilidade das transações e identificação de padrões suspeitos.

A regulamentação atual corrige uma lacuna que havia sido identificada anteriormente pela Receita Federal. Em 2024, o órgão já havia tentado implementar regras similares, mas a medida foi revogada após uma intensa campanha de desinformação que se espalhou pelas redes sociais. Segundo a Receita, o crime organizado aproveitava justamente esse “vácuo regulamentar” para movimentar, ocultar e lavar recursos ilícitos, utilizando as fintechs como canal privilegiado devido à menor fiscalização em comparação com os bancos tradicionais.

A implementação desta nova estrutura regulatória representa um avanço significativo na modernização dos mecanismos de controle financeiro brasileiro. Ao equiparar as obrigações entre diferentes tipos de instituições financeiras, a medida fortalece a capacidade do Estado de monitorar fluxos financeiros suspeitos e coibir atividades criminosas, sem comprometer a inovação tecnológica que caracteriza o setor de fintechs. A instrução normativa, assinada pelo secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, demonstra o compromisso das autoridades em adaptar a regulamentação às transformações do mercado financeiro contemporâneo.

Brasil

O que teria levado partidos ao recuo, por ora, de projeto de blindagem para congressistas

Proposta que limitaria investigações contra parlamentares perde apoio diante da repercussão negativa e resistência de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Imagem: Reprodução

O que começou a semana como prioridade legislativa terminou em recuo generalizado. A chamada “PEC da blindagem”, que pretendia alterar as regras de imunidade parlamentar e retirar do Judiciário e da Polícia Federal a competência para iniciar investigações contra congressistas, perdeu o apoio dos principais partidos após forte repercussão negativa na sociedade e nas redes sociais.

A mudança de postura ficou evidente na quinta-feira, quando Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, anunciou que seu partido não seria mais protagonista da proposta. O mesmo deputado que dias antes havia apelidado o texto de “PEC da chantagem” — em referência a supostas ameaças do Supremo Tribunal Federal — justificou o recuo alegando que outras legendas preferiram “se acovardar” diante da pressão pública.

O MDB foi um dos partidos que explicitamente se distanciou da iniciativa. Baleia Rossi, presidente da legenda, utilizou as redes sociais para declarar oposição a “qualquer tipo de blindagem para parlamentares e mudanças no foro”. A posição representou um movimento claro de esvaziamento dos apoios, especialmente entre as legendas de centro que temiam o impacto negativo na imagem pública.

A proposta havia surgido como parte de um acordo do presidente da Câmara, Hugo Motta, com a oposição bolsonarista, que ocupou a mesa diretora no início do mês. Durante as negociações, Arthur Lira e Elmar Nascimento apresentaram um texto alternativo ainda mais controverso, que exigiria autorização prévia do Congresso para abertura de ações penais ou inquéritos contra parlamentares — ponto que assustou até mesmo deputados inicialmente favoráveis à medida.

O recuo definitivo veio quando ministros do STF tomaram conhecimento da proposta e a consideraram inconstitucional. Hugo Motta, percebendo que o ônus político pesaria sobre sua gestão, decidiu abandonar a votação de um texto que circulava sem autoria identificada e que, na prática, criaria obstáculos severos para investigações contra congressistas, incluindo a possibilidade de suspensão de inquéritos por voto secreto até o fim dos mandatos.

Brasil

Receita Federal libera R$ 2,92 bilhões para quase 1,9 milhão de contribuintes

Quarto lote de restituição do Imposto de Renda contempla beneficiários que declararam dentro do prazo e inclui novidade para quem optou por Pix.

Imagem: Reprodução

A Receita Federal disponibiliza nesta sexta-feira (29) o quarto dos cinco lotes de restituição do Imposto de Renda de 2025, beneficiando 1.884.035 contribuintes com um montante total de R$ 2,92 bilhões. O pagamento contempla pessoas que entregaram a Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física dentro do prazo estabelecido, além de restituições residuais de exercícios anteriores que ainda estavam pendentes.

A distribuição dos recursos segue critérios de prioridade estabelecidos pela legislação tributária, com destaque para grupos específicos da população. Entre os beneficiários, 72.434 são contribuintes com idade entre 60 e 79 anos, 13.515 têm mais de 80 anos, e 7.821 possuem deficiência física, mental ou doença grave. Professores cuja principal fonte de renda seja o magistério também recebem tratamento prioritário, totalizando 22.841 contemplados neste lote.

Uma novidade implementada em 2025 amplia o conceito de prioridade para 312.915 contribuintes que utilizaram simultaneamente a declaração pré-preenchida e optaram por receber a restituição via Pix. Essa medida representa um incentivo à modernização dos processos tributários e à adoção de tecnologias que agilizam tanto a entrega quanto o recebimento dos valores. A maior parcela dos beneficiários, contudo, são os 1.454.509 contribuintes sem prioridade legal, que declararam próximo ao final do prazo.

O acesso aos recursos ocorre diretamente na conta bancária ou na chave Pix do tipo CPF informada na declaração, eliminando a necessidade de deslocamento às agências. A consulta sobre a situação da restituição está disponível desde 22 de agosto no portal da Receita Federal, através da opção “Meu Imposto de Renda”, ou pelo aplicativo oficial para dispositivos móveis. Essa facilidade digital democratiza o acesso à informação e reduz burocracias para os contribuintes.

Para situações em que o depósito não seja efetivado na conta indicada, como no caso de contas desativadas, os valores permanecem disponíveis por um ano no Banco do Brasil. Durante esse período, o contribuinte pode reagendar o crédito para qualquer conta em seu nome através do portal da instituição ou pelos telefones de atendimento. Após esse prazo, a solicitação deve ser feita diretamente no Portal e-CAC da Receita Federal, garantindo que nenhum cidadão perca o direito ao ressarcimento devido.

Direito e Justiça

Tribunal mantém reprovação de candidato a policial por histórico criminal

Decisão judicial considerou que prescrição não impede avaliação de idoneidade moral para carreiras de segurança pública; decisão foi tomada no processo 1.0000.23.247746-3/003.

A 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve a reprovação de um candidato que havia sido aprovado em concurso público para policial militar. O caso envolveu uma pessoa que, mesmo tendo sido aprovada nas etapas objetivas e físicas do certame e matriculada no Curso de Formação de Soldados, foi posteriormente excluída pelo Estado devido a questões relacionadas à idoneidade moral.

O candidato havia declarado ter sido preso em 2015 por porte ilegal de arma de fogo enquanto estava como passageiro em uma motocicleta sem placa. Esse histórico levou a administração pública a instaurar um processo administrativo para avaliar sua idoneidade moral, argumentando que o aprovado não atendia aos requisitos necessários para o exercício da função policial.

Inicialmente, o candidato obteve decisão favorável na Vara da Fazenda Pública e Autarquias Estaduais da Comarca de Juiz de Fora, que anulou o ato administrativo de exclusão do concurso. O Estado recorreu da decisão, sustentando que a avaliação da idoneidade moral deve considerar um conceito amplo que abarca as qualidades que distinguem o indivíduo pela boa prática dos deveres e costumes.

Em sua defesa, o candidato argumentou que a anotação criminal já havia prescrito e, portanto, não poderia ser considerada pelo Estado na avaliação de sua aptidão para o cargo. No entanto, o relator do caso, desembargador Manoel dos Reis Morais, decidiu que a prescrição do processo criminal não impede a administração pública de considerar a conduta pregressa na avaliação da idoneidade moral, especialmente para carreiras de segurança pública.

A decisão foi confirmada pelos desembargadores Juliana Campos Horta e Alberto Vilas Boas, que acompanharam o entendimento do relator. O tribunal considerou que a exclusão do candidato foi legal e que a administração pública tem o direito de avaliar o histórico dos candidatos para funções que exigem elevado padrão de conduta ética e moral, independentemente da prescrição de eventuais processos criminais.

Brasil

Governo anuncia programa que garantirá gás de cozinha gratuito para 17 milhões de famílias

Gás do Povo substituirá programa anterior e será lançado na próxima semana em Belo Horizonte.

Imagem: Marcello Casal/agência Brasil

O governo federal anunciará na próxima semana o programa Gás do Povo, que garantirá gás de cozinha gratuito para famílias de baixa renda em todo o país. A iniciativa, que substituirá o programa Gás para Todos, deve beneficiar cerca de 17 milhões de famílias brasileiras. O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista ao programa Balanço Geral, da TV Record Minas, nesta quinta-feira (28).

O lançamento oficial do programa acontecerá no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, quando o presidente retornar à capital mineira na próxima semana. Segundo Lula, o Gás do Povo funcionará como um programa de financiamento voltado às pessoas mais pobres do país, que não precisarão mais pagar pelo gás de cozinha e receberão o produto gratuitamente. A medida representa uma ampliação significativa do acesso a esse insumo básico para milhões de famílias em situação de vulnerabilidade social.

A iniciativa integra um conjunto mais amplo de políticas públicas voltadas para a população de baixa renda que o governo federal tem implementado. O programa anterior, Gás para Todos, já atendia parte dessa demanda, mas o novo formato promete expandir consideravelmente o alcance e a efetividade da política pública. A escolha do Aglomerado da Serra para o lançamento simboliza o foco da iniciativa nas comunidades que mais necessitam desse tipo de apoio governamental.

Durante a mesma entrevista, o presidente também antecipou outros anúncios importantes para Minas Gerais, incluindo investimentos em mobilidade urbana através do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Entre as medidas estão 31 propostas no valor de R$ 9,6 bilhões e mais 70 propostas de renovação de frota para todo o país, além da expansão do metrô de Belo Horizonte até Contagem, com investimento de R$ 1 bilhão.

O conjunto de anúncios reflete a estratégia governamental de combinar políticas sociais diretas, como o Gás do Povo, com investimentos em infraestrutura que podem gerar empregos e melhorar a qualidade de vida da população. A agenda do presidente em Minas Gerais nesta sexta-feira (29) incluirá visitas a Contagem e Montes Claros, onde serão formalizados contratos com a prefeitura de Belo Horizonte para implantação de faixas exclusivas de transporte coletivo e aquisição de ônibus elétricos, demonstrando a integração entre diferentes frentes de atuação do governo federal.

Ponto de Vista

Ponto de Vista | Transposição do São Francisco: E as águas continuam a não chegar a quem mais delas precisa

Famílias deslocadas pela transposição do São Francisco vivem drama da sede ao lado dos canais.

Há mais de dois meses, escrevi aqui uma reflexão sobre o paradoxo cruel da transposição do São Francisco: a persistência da sede nas comunidades vizinhas aos canais que carregam as águas do Velho Chico. Na época, alertei para a ausência das obras hídricas secundárias, que impediam que os benefícios chegassem efetivamente à população. Desde então, porém, o silêncio das autoridades continua ensurdecedor.

Na última terça-feira (26), estive naquela região e me deparei com o cenário que continua dramático, para dizer o mínimo. O que encontrei foi uma situação que beira o absurdo: famílias que perderam suas terras para dar passagem ao projeto de transposição agora enfrentam uma sede cruel, literalmente ao lado das águas que não podem tocar.

Somente na localidade Barra do Mulungu, 41 famílias foram obrigadas a abandonar suas terras mais baixas, ocupadas pelo projeto da transposição, e se deslocar para áreas mais altas onde não há água para consumo humano nem animal. Essas famílias, que resistem como podem, vivem um desespero silencioso, clamando às autoridades por um sistema simplificado de abastecimento. A ironia é cruel: a água passa ao lado de suas casas, mas é proibido tocá-la.

Um relato que me fizeram ilustra bem essa situação kafkiana: um morador teria sido flagrado por um suposto agente do governo tentando retirar água do canal com um caminhão-pipa e foi obrigado a derramá-la de volta. É a sede sendo punida pela sede, numa demonstração clara de como a burocracia, ou ausência de ações efetivas, pode ser cruel.

Diante desse cenário, fica evidente que o papel das autoridades — principalmente aquelas mais próximas do problema — e também do cidadão, incluindo a imprensa, é mostrar, indicar, denunciar, protestar. Sem um movimento conjunto e apartidário, as pautas que realmente importam para a população local jamais chegarão às mais altas esferas da administração pública. A transposição do São Francisco não pode ser apenas um projeto de engenharia; precisa ser, acima de tudo, um projeto de dignidade humana.

Brasil, Internacional

Justiça italiana mantém Carla Zambelli presa por risco máximo de fuga

Corte de Apelação nega pedido da defesa para que deputada aguarde decisão sobre extradição em liberdade.

Imagem: Lula Marques/agência Brasil

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) permanecerá presa na Itália após decisão da Corte de Apelação do país, que identificou “grau máximo” de perigo de fuga caso a parlamentar seja liberada. A determinação foi divulgada nesta quinta-feira (28/8), um dia após Zambelli passar por audiência com três juízes italianos que analisam o pedido de extradição feito pelas autoridades brasileiras.

A defesa da deputada havia solicitado à Justiça italiana que ela aguardasse em liberdade a decisão sobre sua extradição, requerida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Zambelli foi condenada duas vezes pela Corte brasileira e deixou o país antes de ser presa, buscando refúgio no território europeu. Os magistrados italianos, no entanto, rejeitaram o pedido após avaliar laudos médicos e concluir que a deputada tem condições de permanecer no sistema prisional.

Durante a audiência realizada na quarta-feira (27/8), o procurador de Justiça da Itália alertou os juízes sobre o risco de fuga da brasileira, argumento que foi contestado pela defesa. O advogado Pagnozzi sustentou que Zambelli não possui passaporte italiano nem brasileiro e não tem recursos financeiros disponíveis, uma vez que o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio das contas bancárias dela e de seu marido.

A avaliação médica realizada por peritos italianos concluiu que a equipe da unidade prisional onde Zambelli está detida “garante a administração correta de terapias farmacológicas, o monitoramento básico e especializado constante da saúde e a administração correta e consistente das terapias estabelecidas”. Segundo relatos da defesa, o responsável pela perícia falou por cerca de dois minutos durante a audiência, limitando-se a afirmar que a deputada “pode continuar em cárcere” sem apresentar justificativas detalhadas.

A parlamentar aguardará na prisão italiana a decisão final sobre sua extradição para o Brasil, onde responde a processos que resultaram em duas condenações pelo STF. O caso representa um marco nas relações jurídicas entre Brasil e Itália, envolvendo uma figura política de destaque que buscou escapar da Justiça brasileira em território europeu, mas encontrou resistência das autoridades locais em conceder-lhe liberdade provisória.

Segurança Pública

Quem são os alvos da operação contra o PCC que sacudiu a Faria Lima

Megaoperação mira empresário e rede de combustíveis que movimentou bilhões com esquemas fraudulentos.

Imagem: Reprodução

O empresário Mohamad Hussein Mourad desponta como o principal alvo da megaoperação deflagrada nesta quinta-feira (28/8) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal. Investigado há anos por atividades ilícitas e com histórico de associação ao Primeiro Comando da Capital (PCC), Mourad é apontado como o epicentro de um esquema criminoso no setor de combustíveis que conecta a facção ao maior centro financeiro do país, a Faria Lima.

Mohamad Hussein Mourad | Imagem: Reprodução

Ao lado de Mourad, Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, figura como outro operador central do ecossistema fraudulento. A dupla teria instrumentalizado as empresas Copape, uma formuladora, e a distribuidora Aster para executar fraudes fiscais, contábeis, falsidades e lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, ambos operavam uma extensa rede que envolvia familiares, sócios, administradores e profissionais cooptados para a execução das fraudes, além da gestão de fundos de investimentos destinados à ocultação e blindagem patrimonial.

Entre os demais alvos da operação estão Marcelo Dias de Moraes, presidente da Bankrow Instituição de Pagamento, e Camila Cristina de Moura Silva, diretora financeira da BK, fintech caracterizada como “banco paralelo” do esquema de adulteração de combustíveis com metanol. A investigação revelou que a BK mantém “procurações cruzadas” com a Bankrow, evidenciando a interconexão entre as instituições financeiras utilizadas para movimentar recursos ilícitos. Também foram mirados Valdemar de Bortoli Júnior, ligado às distribuidoras Rede Sol Fuel e Duvale, e José Carlos Gonçalves, conhecido como “Alemão”, apontado por sua vinculação direta com o PCC.

O alcance da operação se estende a profissionais que facilitavam as operações criminosas, como os contadores Lucas Tomé Assunção, vinculado à GGX Global Participações – empresa proprietária de 103 postos de gasolina – e à Usina Sucroalcooleira Itajobi, e Marcello Ognibene da Costa Batista, contador de múltiplas empresas com indícios de fraude societária. A rede criminosa abrangia toda a cadeia de combustíveis, desde a importação e produção até a distribuição e comercialização ao consumidor final.

Além das pessoas físicas, a operação mira dezenas de empresas e instituições financeiras, incluindo o Banco Genial e múltiplos fundos de investimento com nomes como Zeus, Atena, Olimpia e Minesotta. Os 350 mandados de busca e apreensão cumpridos simultaneamente revelam a dimensão de um esquema que, segundo as investigações, sonegou mais de R$ 7,6 bilhões em impostos e estabeleceu conexões não apenas com o PCC, mas também com outros grupos criminosos organizados.

Brasil

Revista britânica aponta Brasil como exemplo democrático para os Estados Unidos

The Economist destaca julgamento de Bolsonaro e critica autoritarismo crescente na América do Norte.

Jair Bolsonaro na capa da revista britânica “The Economist” | Imagem: Reprodução

A revista britânica The Economist colocou o ex-presidente Jair Bolsonaro em sua capa desta semana, retratando-o com o rosto pintado nas cores nacionais e usando um chapéu similar ao do “viking do Capitólio”, em clara referência aos eventos extremistas que marcaram a invasão ao Congresso americano em 2021. A publicação, que chega às bancas nesta quinta-feira, apresenta o julgamento do brasileiro, que começará em 2 de setembro por tentativa de golpe de Estado, como uma “lição de democracia” para uma América que, segundo a revista, “está se tornando mais corrupta, protecionista e autoritária”.

Manifestante com adereços e rosto pintado grita dentro do edifício do Capitólio após invasão de apoiadores de Donald Trump em Washington | Imagem: Reprodução

Chamado pela The Economist de “polarizador” e “Trump dos trópicos”, Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar, é apresentado como parte de uma “febre populista” que afetou diversos países. A revista avalia que o ex-presidente brasileiro e seus aliados “provavelmente serão considerados culpados” pelo Supremo Tribunal Federal, observando que “o golpe fracassou por incompetência, e não por intenção”. Esta análise posiciona o Brasil como um “caso de teste para a recuperação de países” que passaram por experiências similares de radicalização política.

A publicação britânica contrasta a resposta institucional brasileira com as recentes ações do governo Donald Trump, que incluem a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes. A revista também menciona tentativas de interferência no Federal Reserve americano e ameaças a cidades controladas por adversários democratas como exemplos do retrocesso democrático nos Estados Unidos.

Segundo a The Economist, essas ações remetem “a uma era sombria e passada, em que os Estados Unidos, habitualmente, desestabilizavam os países latino-americanos”. A revista destaca que, diferentemente do cenário americano, “muitos dos políticos tradicionais do Brasil, de todos os partidos, querem seguir as regras e progredir por meio de reformas”, caracterizando essas atitudes como “marcas da maturidade política”.

A análise conclui que “pelo menos temporariamente, o papel do adulto democrático do hemisfério ocidental se deslocou para o sul”, sugerindo uma inversão histórica nas relações de poder e estabilidade institucional entre Brasil e Estados Unidos. A revista prevê que a interferência de Trump “provavelmente sairá pela culatra”, reforçando a tese de que o Brasil oferece um exemplo de como as instituições democráticas podem resistir e responder adequadamente a tentativas de subversão do Estado de Direito.

Brasil

Sem acordo, Câmara adia votação de PEC que blinda parlamentares

Não houve consenso entre deputados; texto é apoiado pela oposição, mas enfrenta resistência de governistas.

Imagem: Reprodução

A votação da chamada PEC das Prerrogativas (PEC 3/21), que altera regras sobre a imunidade parlamentar, foi adiada nesta quarta-feira (27) após líderes partidários não chegarem a um acordo durante reunião na residência oficial da Presidência da Câmara. A proposta, chamada de PEC da Blindagem por seus críticos, constava da pauta do Plenário, mas ainda não há previsão de quando será analisada novamente. Para aprovar uma PEC é necessário o apoio de ao menos 308 votos, em dois turnos.

Entre outras mudanças, o texto dificulta a prisão e o afastamento de parlamentares do exercício do mandato via medida judicial. A proposta enfrenta resistência do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.

Parlamentares da oposição defenderam a apreciação imediata do texto, alegando que a medida fortalece o Congresso e garante proteção ao exercício do mandato. O deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB) afirmou que muitos parlamentares hoje se sentem intimidados ao usar a tribuna.

“O que acontece hoje é chantagem explícita do Congresso Nacional. Parlamentar com medo de falar naquela tribuna, isso não é democracia”, disse. Já o deputado Carlos Jordy (PL-RJ) argumentou que a proposta evita abusos de autoridade, lembrando que foi alvo de uma operação policial em 2024. “Pegaram o meu passaporte diplomático, a minha arma, o meu celular e o meu computador e, até hoje, nada me foi devolvido. A aprovação da PEC vai gerar equilíbrio entre os Poderes.”

Base governista e esquerda criticam o texto

Na outra ponta, deputados da base governista e da esquerda atacaram a PEC, classificando-a como tentativa de blindagem parlamentar. Para Sâmia Bomfim (Psol-SP), a proposta criaria uma espécie de “autoautorização” para proteger congressistas até mesmo de crimes graves:

“Crimes gravíssimos, inclusive assassinato e pedofilia, ninguém poderia ser preso e condenado por isso. Por quê? Porque é parlamentar e se acha acima da lei.”

O deputado Ivan Valente (Psol-SP) chamou o texto de “absurdo total” e pediu que o relator, Lafayette de Andrada (Republicanos-MG), não o leve a voto.

Já o vice-líder do governo, Márcio Jerry (PCdoB-MA), declarou que o debate sobre prerrogativas não pode ser confundido com blindagem de mandatos. Segundo ele, as críticas à atuação do Supremo têm origem em parlamentares que se incomodam com a aplicação da lei: “Tem muita gente incomodada com o funcionamento do Judiciário por uma razão: porque tem muita gente fora da lei que está incomodada com a cobrança da lei por parte do Supremo.”

Direito e Justiça

Justiça proíbe trabalho infantil em redes sociais sem autorização prévia

Decisão determina que Facebook e Instagram se abstenham de explorar menores em atividades comerciais; decisão foi tomada no processo 1001427-41.2025.5.02.0007.

A Justiça do Trabalho de São Paulo determinou nesta quarta-feira que as plataformas Facebook e Instagram se abstenham de permitir trabalho infantil artístico sem prévia autorização judicial. A decisão da juíza Juliana Petenate Salles, da 7ª vara, atendeu pedido do Ministério Público do Trabalho e estabelece multa diária de R$ 50 mil por criança ou adolescente encontrado em situação irregular, valor que será revertido ao Fundo da Infância e Adolescência.

O inquérito civil apresentado pelo parquet revelou a existência de perfis de menores de idade em atividades remuneradas sem a devida autorização judicial, violando o artigo 7º, XXXIII, da Constituição Federal e a convenção 138 da Organização Internacional do Trabalho. A magistrada destacou que a empresa se beneficia da atuação de crianças e adolescentes em conteúdos de natureza comercial sem observar as garantias previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

A decisão fundamenta-se nos riscos sérios e imediatos gerados pela exposição de menores na internet para fins de lucro sem devida avaliação das condições de trabalho artístico. Entre os perigos identificados estão prejuízos à saúde física e mental, exposição a ataques virtuais, uso indevido da imagem, impactos sociais e educacionais, além da possibilidade de danos irreversíveis pela circulação ilimitada de imagens na rede.

A juíza enfatizou que a proteção da infância constitui dever compartilhado pela família, sociedade e Estado, em consonância com o artigo 227 da Constituição Federal, que garante prioridade absoluta à infância e à juventude. A magistrada afirmou que os riscos demonstram o perigo de dano na situação concreta e reforçam a necessidade de atuação imediata do Poder Judiciário para salvaguardar os direitos fundamentais dos menores.

A empresa foi intimada a cumprir a ordem judicial no prazo de cinco dias úteis. A decisão representa um marco na proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, estabelecendo precedente para coibir a exploração comercial de menores em plataformas de redes sociais sem as devidas salvaguardas legais e judiciais.

Rolar para cima