Assassinato em Patrocínio (MG) estarrece cidade onde seis famílias disputam o poder

Patrocínio, cidade do interior de Minas Gerais com cerca de 100 mil habitantes, conhecida por produzir um dos cafés mais caros do mundo, está estarrecida desde quinta-feira, quando o pré-candidato a vereador Cássio Remis (PSDB) foi assassinado pelo irmão do prefeito e secretário municipal de obras, Jorge Marra. Os dois faziam parte de famílias tradicionais da política regional, mas que até então conviviam pacificamente.

Moradores contam que além dos Remis e Marras, também têm influência política na cidade do Alto Paranaíba as famílias Brasileiro, Queiroz, Elias e Siqueira. Muitas vezes em lados opostos, as divergências nunca tinham chegado ao campo criminal.

— Sempre foi um lugar pacífico, sem nenhum registo de crime político. A cidade ainda está consternada, tentando entender o que aconteceu — conta o jornalista Alex Guimarães Machado.

O advogado Cássio Remis, de 37 anos, era presidente do PSDB no município e já tinha sido vereador por dois mandatos. Em 2016, ele foi derrotado pelo atual prefeito, Deiró Marra (DEM), na disputa pelo cargo. Desde então, o ativista político ficou conhecido por fazer vídeos nas redes sociais denunciando supostas irregularidades da atual administração.

Em junho, Cássio acusou o irmão do prefeito de usar equipamentos da prefeitura em suas fazendas. A família integra o grupo dos principais produtores rurais da região, atividade responsável por 80% dos impostos arrecadados no município.

Conhecida como a capital do café, a cidade chegou a figurar nas páginas dos jornais em 2017, por ter atingido a marca do café mais caro do mundo, após ter leiloado um quilo da produção por R$ 917.

Antes do assassinato de Cássio, os episódios de violência em Patrocínio eram pontuais, a maioria por conta do tráfico de drogas. Nos meses de junho e julho, uma disputa pelos pontos de venda de drogas em um dos bairros da cidade deixou seis suspeitos mortos.

Moradores relatam que o tráfico chegou na região após a inauguração da Penitenciária Deputado Expedito de Faria Tavares, que abriga presos da maior facção criminosa do país, que atua em presídios paulistas.

A polícia acompanha os desdobramentos do assassinato de Remis, já que após o crime foram feitas ameaças de morte contra o prefeito, como forma de vingança. O autor dos disparos, Jorge Marra, está foragido.

O desentendimento começou na manhã de quinta-feira, quando o secretário de obras interrompeu uma transmissão ao vivo do pré-candidato e tomou seu celular à força. Na live, Remis denunciou que a prefeitura estava fazendo uma obra na calçada em frente ao local programado para receber o comitê eleitoral de Deiró Marra, que concorre à reeleição.

Remis teria ido à secretaria municipal retomar o celular, onde o crime aconteceu. Um vídeo do sistema de segurança mostra o momento em que Jorge Marra saca uma arma e atira na vítima. Testemunhas relatam que três tiros foram dados com o advogado já caído no chão, um com revólver encostado em sua cabeça.

A assessoria de Deiró Marra não retornou os contatos do GLOBO. Em uma publicação em suas redes sociais, o prefeito classificou o crime como uma tragédia. Ele decretou luto de três dias e exonerou o irmão do cargo de secretário de obras.

Fonte: O Globo