Artigo: O novo normal

Por Rodrigo Augusto Prando*

No primeiro artigo que escrevi acerca da pandemia, já com as aulas suspensas e trabalhando em casa, fiz, em 21/03/20, a seguinte consideração, logo no início: “Presenciamos, sociologicamente, uma suspensão da vida cotidiana, da normalidade de nossas relações sociais. E, sejamos realistas, isso assusta, nos traz medo, angústia e sensação de impotência frente à pandemia ocasionada pela Covid-19”. Há algumas semanas um termo frequenta a mídia e as conversas: o “novo normal”. Cabe, aqui, algumas considerações.

A pandemia trouxe, realmente, à tona uma realidade distante de nossa normalidade. Muitos países – e o Brasil inclusive – implantaram graus distintos de isolamento social até o lockdown. A noção de isolamento social dentro de um espaço chamado sociedade já é capaz de indicar que algo muito diferente está acontecendo. Somos, desde a mais tenra infância, socializados (educados e aculturados) a fim de vivermos em sociedade, cumprindo distintos papéis sociais e, sempre, dentro dos padrões que a sociedade estabelece como normais.

Émile Durkheim, considerado um dos fundadores da Sociologia, tem uma obra que busca desvendar as características peculiares dos fenômenos sociais e como estudá-los. Em sua obra “As regras do método sociológico”, o autor disserta acerca da importância de se entender as especificidades do “fato social”, sendo este considerado o objeto de estudo da Sociologia, bem como define suas características e como deve o cientista, o sociólogo, se comportar no estudo destes fatos. Importa, neste caso, uma distinção feita entre fato social normal e fato social patológico. Assim, para Durkheim, “um fato social é normal para um tipo social determinado, considerado numa fase determinada de desenvolvimento, quando se produz na média das sociedades desta espécie, consideradas numa fase correspondente de desenvolvimento”.

O crime, por exemplo, é considerado – pelo autor francês – um fato social normal, pois não há sociedade que não apresente esse fenômeno, esse fato social. Há diversos tipos de crimes: furtos, roubos, assassinatos, sequestros e estupros, entre outros. Eles, queiramos ou não, encontram-se nas mais diversas sociedades, todavia, numa análise comparativa em sociedades de desenvolvimento semelhantes há uma taxa que se considera aceitável, normal, de crimes.

O Brasil vem ostentando uma média de cerca de 60 mil assassinatos por ano e mais uns 40 mil mortos em acidentes de trânsito. Esses números, por si só, são próximos de uma guerra e seriam repudiados na grande maioria dos países, mas, no nosso país, foram considerados normais, pois há, estatisticamente, uma regularidade nesse fenômeno. Desta forma, o normal nestas plagas seria considerado anormal noutra sociedade. Então, quando um fato social é anormal, portanto, tira a sociedade de sua normalidade, da regularidade dos padrões de sociabilidade, há a preocupação sociológica para que a anormalidade não evolua para uma anomia, isto é, para uma situação de ausências de normas e regras e que pode até levar à morte do “organismo social”.

A normalidade de nossa vida cotidiana do início do ano e de todos anos anteriores, não se faz mais presente. A nossa rotina, nossos hábitos, de trabalho, estudos, lazer e relações sociais estão em compasso de espera. Aguardamos, ansiosos, por uma vacina ou por um tratamento eficaz contra a Covid-19.

Por enquanto, seguindo as recomendações científicas e médicas, a única forma de proteção é o distanciamento social, objetivando diminuir o contágio da doença de rápida e ampla disseminação. O desejo, crença e esperança é que com uma vacina possamos retornar à normalidade, à vida de antes da pandemia. Difícil. Mesmo com vacina ou medicamentos, teremos uma profunda crise econômica e, infelizmente, ao que tudo indica, um cenário de crise política. Muitos, no início, fizeram a comparação da consternação que causa na opinião pública a morte ocasionada pela queda de um avião comercial, com cerca de 400 pessoas, com essas vidas perdidas e as vidas que seriam perdidas pela Covid-19.

Até o momento, 13/05, o Brasil tem o registro de cerca de 12.400 mortes pelo coronavírus. São muitos aviões caindo todos os dias. Creio que da mesma forma como nos habituamos aos assassinatos e às mortes no trânsito, vamos nos habituando às mortes da pandemia, muitas evitáveis. Há, na cultura brasileira, violenta e autoritária, certa conivência com a morte, especialmente as evitáveis, que nos coloca num patamar de normalidade cruel.

Provavelmente, o tal do “novo normal” vai se desenhando por conta da pandemia. O home office que há muito existe foi acelerado para muitas categorias profissionais; artistas que dependem de público (portanto, de aglomerações) buscam, com sofrimento, se reinventar; alunos e professores, idem. Temos, especialmente nós brasileiros, saudades dos abraços e beijos – do contato físico – nos familiares ou amigos. Sentar-se à mesa com amigos, vendo jogo; almoçar na churrascaria, num rodízio; treinar na academia; olhar para o aluno em sala de aula e perceber, pelas suas feições, que o conceito fez sentido ou não.

Sociologicamente, o novo normal trará, provavelmente, aspectos positivos e negativos. Apresentará nossa criatividade e nossas iniquidades. Quiçá tenhamos que ressignificar a nossa forma de consumir e viver em sociedade; quiçá as noções de desenvolvimento sustentável e de qualidade de vida ganhem expressão e se consubstanciem em práticas individuais e coletivas.

Bem que o novo normal poderia ser de repúdio à miséria e à grande desigualdade de renda, educação e oportunidades. Quem sabe, por fim, possamos compreender a importância da política e da necessidade de líderes políticos e melhorar a qualidade de nossa representação nos poderes executivo e legislativo. Quem sabe?

*Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp de Araraquara.