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Artigo – Agrotóxicos: como será o amanhã?

Por Rômulo S. Medeiros*

O mundo assiste, abismado, à intensificação da liberação de novos agrotóxicos para uso em nossas lavouras e nós, brasileiros que defendemos uma agricultura de base agroecológica, perguntamo-nos: como será o amanhã caso esse uso abusivo de venenos continue no ritmo alucinante que está ocorrendo?

Agrotóxicos, substâncias químicas, são empregados no combate às pragas, ervas daninhas e doenças que atacam as plantas cultivadas. Dentre essas substâncias destacam-se os herbicidas (“mata-mato”) e os inseticidas.

O uso de pesticidas nas lavouras começou a ser utilizado, de forma mais sistemática, a partir da 2ª Guerra Mundial com o advento da Revolução Verde (modelo de produção agrícola baseado no emprego de agroquímicos, sementes melhoradas geneticamente e mecanização agrícola).

O otimismo em torno da revolução verde, especialmente nas décadas de 1940-1950, foi tamanho, que muitos pesquisadores da época acreditavam que os problemas com as pestes nas lavouras estavam, definitivamente, resolvidos. Isto porque havia uma “crença” quase generalizada que os agrotóxicos dariam conta de qualquer praga. Foi nesse período que reinou um inseticida mundialmente conhecido como DDT. A arrogância científica da época não levou em consideração um aspecto importante da biologia, qual seja: os insetos habitam o planeta a muito mais tempo do que os humanos e apresentam uma extraordinária capacidade de adaptação e evolução.

Nesse sentido, não tardou para as pragas desenvolverem resistência aos, até então, “todo-poderosos, inseticidas”. Como consequência disso, o emprego de inseticidas tornou-se cada vez maior. Felizmente em 1962 foi lançado o livro “Primavera Silenciosa”, da bióloga norte-americana Rachel Carson, cuja mensagem central foi: “o mundo está sendo envenenado pelo uso abusivo de agrotóxicos”. Esta publicação foi, rapidamente, traduzida para vários idiomas, tornando-se um best-seller mundial, sendo considerada uma das 20 obras mais importantes do século XX.

Após o alerta de Primavera Silenciosa, a pressão da opinião pública foi tão grande que no início dos anos de 1970 o uso de DDT foi banido nos EUA e Europa. Infelizmente no Brasil a proibição só ocorreu em 1985 (uso na agricultura) e 1998 (uso na saúde pública).

Parece-me que não demos a devida atenção para o chamamento dramático de Rachel Carson, pois desde 2008, o Brasil reveza, com os EUA, o 1º lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Estima-se que são utilizados em torno de 1 bilhão de litros de agrotóxicos nas lavouras brasileiras, o equivalente a, aproximadamente, 5 litros por habitante por ano. Como se não bastasse essa situação já extremamente preocupante, eis que surge o Governo Bolsoraro com uma política de total afrouxamento em relação à liberação de registros de novos pesticidas. Nos 06 primeiros meses de sua gestão já foi liberado o registro de mais de 200 agrotóxicos, uma média de mais de um produto por dia.

A situação brasileira em relação ao uso de agrotóxicos é tão dramática que o jornal francês Le Monde chamou, em tom irônico, os pesticidas de o “tempero preferido” dos brasileiros. Como disse Gregório Duvivier no Greg News sobre Agrotóxicos: “o Brasil rir na cara da morte”. Não por acaso o uso excessivo de agrotóxicos é considerado, por muitos especialistas, um problema de saúde pública que está afetando a saúde das gerações futuras, uma vez que essas substâncias ocasionam câncer, má formação de fetos, disfunções hormonais, etc.

Nesse contexto sombrio não custa lembrar que a pasta da Agricultura é, atualmente, comandada pela deputada Federal Tereza Cristina, líder da bancada ruralista e ardorosa defensora dos agrotóxicos. Cuide-se EUA, agora vamos nos isolar na liderança referente à utilização dessas substâncias!

Diante desse panorama assustador uma pergunta tem me causado grande inquietação, especialmente nos últimos meses: que Brasil meus filhos e netos herdarão, dada a contaminação brutal do nosso solo, da nossa água, da nossa vida, devida à forma irresponsável como estamos lidando com os agrotóxicos?

Para ir mais longe recomendo as seguintes publicações: Dossiê Abrasco (2015), Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia (2017) e a WEB série Documental Viva Sem Veneno.

*Engenheiro Agrônomo. Professor do IF Sertão-PE – Campus Salgueiro

4 comentários sobre “Artigo – Agrotóxicos: como será o amanhã?

  1. Machado Freire

    Diante do abismo que nos espera bem ali na esquina- tantos são os crimes praticados contra uma sociedade inerte, e cada dia mais vulnerável, só nos resta apelar para que os meios de comunicação e os gestores (e de modo particular os professores/educadores) de escolas públicas, partam, com urgência para alertar a todos, principalmente a juventude sobre esta grave situação em que nos encontramos.

    Seguir o exemplo do professor Rômulo, e ampliar os ensinamentos contra a sanha devastadora daqueles que insistem em satisfazer a gula dos grandes empresários e do governo insensíveis aos problemas que enfrentanmos com o aumento desenfreado dos condenáveis agrootóxicos. na grande pequena e média agricultura do nosso País.

    Antes que seja tarde demais.

  2. Alvinho Patriota

    Parabenizamos ao Professor Rômulo Medeiros pelo esclarecedor artigo. Disponibilizamos espaço neste Blog e na Rádio Vida (Salgueiro), ao Professor Rômulo e quem mais, para publicações dessa natureza que possam servir de alerta às autoridades e a própria população para não se calar diante de tamanho problema.
    Alvinho Patriota